terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Conversa Amena de Rogério do Carmo

Uma vez, estava eu sentado no Café Chave d'OURO, ali no Rossio, estava desempregado há duas semanas, não tinha onde dormir nem dinheiro para comer, quando dois jovens muito bem arreados, filhos de gente rica,passaram pela minha mesa e disse um para o outro:

-Ah! As vicissitudes da vida!

Uma fúria subiu por mim acima, pedi uma esferográfica (já haviam) ao criado, afastou a minha chávena e o cinzeiro, e vomitei este poema sobre a toalha de papel que cobria a minha mesa:

Pobre menino rico que passas bonito todo risonho enfatuado
Dentro do teu fato novo flutuante e garrido como um balão
E que levas na testa um curso completo e as chaves do carro mostradas
na mão!
Teus lábios rosados cultos saciados sem nenhuma vibração
Atiram posporrentos: As vicissitudes da vida… Numa larga exibição!
Tu que emergiste de um ventre sem fome e sem gritos lauto e repousado
Que tombaste num berço amplo e macio ridìculamente engalanado
E que a vida te surgiu através de uma lente diáfana e colorida
Diz-me: Que sabes tu da vida? Sim! Que sabes tu da vida?
Essa miséria chocante que num insulto apregoas alto e tolamente
Com esse teu falso e intolerável ar pretenciosamente adulto
Foste colhê-la em livros que nem sequer acabaste de ler enfastiado!
Sabes que não há nada pior - Não! Não há nada pior!
Do que nos entregarmos ao que não pertencemos nem nunca pertenceremos?
Que não há nada pior do que recusarmos e negarmos categòricamente
A secreta verdade que dentro de nós dia a dia vamos acalentando?
Alguma vez reparaste naquela prostituta tão idêntica a tantas outras
A passear à noite o olhar ansioso pelas ruas numa constante interrogação?
Reparaste nos seus lábios rodela informe de um vermelho barato
Num sorriso apertado intencional em triste e permanente leilão?
Alguma vez te ocorreu que esses lábios debochados e sem recato
De que lúbrico te utilizas tão vilmente num erotismo desvairado
Outrora foram puros e sedentos palpitantes e de ninguém!
E que um dia esboçaram o seu primeiro sorriso deslumbrado
Como a tua como a minha como a mãe de toda a gente?
Reparaste nos homens que não vão asquerosos num rictus chocarreiro
Que passam e que se viram a fazer chocalhar a porcaria do dinheiro
No fundo sujo dos bolsos numa insinuação sórdida boçal e repelente?
E que até o vento da noite parece chincalhar nos seus cabelos crespos?
Alguma vez andaste descalço por não teres sapatos nem chinelos de trança
Por sobre um asfalto cortante de frio como vidros quebrados no inverno
E a arder implacàvelmente pelos tórridos Agostos de um verão sem esperança?
Alguma vez caminhaste na sombra cosido às paredes quase rastejando
A dissimular dos teus parentes a humilhação de um fato já decrépito?
Alguma vez -tão criança!- foste disfarçado e receoso àquele quartel
Em busca dos restos do rancho e do casqueiro dispersos pelas mesas desoladas
Aquelas mesas longas muito longas de pedra raiada fria e degradante
Para onde eu esticava vorazmente estas mesmas mãos famintas e vexadas?
Depois quando a casa tornavas com os bolsos repletos de duras côdeas
Amargamente irada e deprimida a tua mãe não te dizia:
Não quero! Não quero que voltes mais! Nunca mais! Não quero!
E não haviam lágrimas nas côdeas que em migas ela de seguida te fazia?
Sabes o que é ouvir a minha mãe soluçando toda a noite sufocadamente?
Sabes o que é querermos acima de tudo e de todos nesta maldição de vida
A essa criatura admirável terna e corajosa que me sorri compungida
A única coisa de realmente bom que Deus ainda me não assambarcou
E cá de longe aquela saudade imensa de onde venho e para onde vou
A alastrar em nós como chama crepitante como chaga redentora
Que nos alimenta e ao mesmo tempo nos cansa nos aniquila e nos devora?
Alguma vez te dobraste discretamente na rua como um vulgaríssimo ladrão
A colher na borda conspurcada de um passeio uma ponta de cigarro pelo chão
Para enganar aquela estranha sensação de vácuo na tua boca sequiosa e renitente
A quem tu em vez de cigarros brancos longos e roliços davas pontas requeimadas?
E mais! Alguma vez amaste louca e verdadeiramente uma mulher entristecida?
Alguma vez sentiste húmidos os teus olhos baços e enxutos húmidos de felicidade!
Por a sentires pequena e toda entregue na mísera escassês dos teus braços?
E nota bem! Alguma vez morrendo aos poucos renunciaste ao amor dessa mulher
Pura e simplesmente porque os outros abusivamente assim o decidiram?
Alguma vez palmilhaste meia cidade em busca de um emprego que tarda em vir
Um emprego quantas vezes deplorável asfixiante mas que nos permite subsistir?
Alguma vez passaste uma noite em claro imensa que parecia não ter fim
Num quarto de dormidas económicas pestilento em promíscuas e fétidas exalações
Onde todos dormiam à sua maneira menos tu em horríveis convulsões
Ou pernoitaste no patamar da escada de uma pensão num imundo e febril arrepio
Como um cão raivoso sem dono nem coleira sem tijela nem barraca num desvario?
Alguma vez mascaraste de humildade um ódio grandioso ao esmolar uma parca refeição?
Alguma vez para o bilhete do eléctrico te faltou um denegrido e ridículo tostão?
Alguma vez perverso e aviltado com um desprezo enorme pela humanidade inteira
Alugaste miserávelmente o sexo para pagar uma prestação e calar uma hospedeira?
Alguma vez te masturbaste para conseguir conciliar o sono e não endoidecer ainda?
Alguma vez sentiste nojo um nojo atroz irreparável e viscos de ti próprio?
Alguma vez amando profundamente a vida aquela outra vida que te não foi dado viver
Estiveste à beira de um percipício para te despenhar e não te despenhaste?
Alguma vez choraste de raiva por te saberes impotente para valer a um desgraçado?
Alguma vez soluçaste sobre o cadáver já hirto de um gato todo branco ensanguentado
Que parecia encerrar em seus olhos estranhos e longínquos dum esfíngico mistério
Toda a indiferença e insensibilidade que eu de alto a baixo gostaria de sentir
Por toda essa humanidade com um pouco desse teu ar de estúpida superioridade?
Alguma vez sentiste respeito pelos que num declive gradualmente vão descendo
Porque não têm mais forças nem apoio para resistirem com brio e orgulho combatendo
Para lutarem contra aquela força indecifrável que fatalmente os arrasta e os impele?
Mas depois uma lâmpada acesa por detrás dos foscos vidros de uma janela
Não exercia sobre ti o místico fascínio do brilho cintilante duma intangível estrela?
Alguma vez contrariaste uma tendência ou debelaste um vício menino vicioso?
Alguma vez escreveste um poema mesmo porco lamentável menino intelectual?
Ao menos alguma vez leste um poema até ao fim bom ou mau mas sempre mensageiro?
Alguma vez estiveste desprotegidamente horas e horas sob uma chuva torrencial
Por ser na rua o uníco processo de escutares aquela música sortílega e necessária
Para te ergueres das trevas obsecadas e medonhas de uma loucura quase magistral!

Depois de tudo isto te ter acontecido a rasgar impiedosamente uma efémera juventude
Aqueles breves anos que deveriam ser belos leves e felizes para toda a gente
Quando tu fortemente aprisionada na garra furiosa de uma verdadeira vicissitude
Cheio de um remorso alucinado no rasto do desespero aniquilado e ausente
Esmagado pelo cansaço sem ânimo sequer para esboçar um movimento de revolta
Então acerca-te de mim e fala-me longamente de tua angústia do teu medo torturado
Podes mostrar-te confiadamente e gritar e chorar até sobre o meu ombro já tranquilo
E podes apertar a minha mão como se ela fosse o último apoio consistente que te resta
Porque eu saberei escutar-te até ao fim num balsâmico silêncio afagador
Depois então darte-ei essa mesma mão esquálida no fundo bem erma e bem vazia
Charmarte-ei homem amigo poeta irmão com amizade com ternura e gratidão.
Contarte-ei uma longa história autêntica bruta descoberta sem nunhuma simetria
E levarte-ei vida fora já liberto a mostrar-te as ruas tal como elas são!


Rogério do Carmo
Lisboa, 29/12/1959


Querido Rogério, recebi ontem o teu "Vagas" e quis homenagear-te desta forma, publicando a tua "Conversa amena" de que tanto gosto. Aos meus seguidores e amigos eu peço que entrem no blog do Rogério aqui linkado, o Sombras Vagas e que o oiçam declamar. É simplesmente único e emocionante.
Um homem maravilhoso, com uma vida intensa e muito para contar.
Recebi o seu livro de poemas ontem, chegado de França, onde criou com um grupo de amigos, uma rádio portuguesa, a rádio Alfa de Paris e segundo palavras suas "o ultimo grande, grande amor da sua vida"!

9 comentários:

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Ana...palavras sentidas, mas ao mesmo tempo abrandadas pela experiência de quem já passou e ainda passa por momentos na vida de puro crescimento espiritual...
Vou lá visitá-lo...
Por coincidência vou postar um poema que fiz após ler algumas páginas de um livro que também me foi enviado por uma amiga blogueira...a Leticia do blog Afeto Literário que lançou seu primeiro livro...

Um abraço na alma Ana...que ela continue assim...grande...sabendo acolher os amigos de forma sempre admirável e respeitosa sempre...
Apareça...bjo

AFRICA EM POESIA disse...

Ana
Temos que ter a certeza que amanhã é outro dia...


Simplesmente belo o que li...

um beijo



PALAVRA


O amor...
Palavra pequena...
Palavra simples...
Mas palavra...

......

Palavra...
Que é...
Forte...
Palavra...
Que é...
Imprescindível...

......

Que todos querem...
Pois quem não sabe...
...Amar...
Não sabe também...
...Viver!...

LILI LARANJO

Maria Emília disse...

Muito interessante, Ana, Da raiva e irritação também brotam coisas muito bonitas:... há gente que vive chorando de barriga cheia...
Um beijinho,
Maria Emília

tossan disse...

Este texto foi arrancado da alma. Muito lindo e puro! Demorei porque vim de barco no nevoiro dos mares. mas pedi uma trégua para apreciar a paisagem. Mande-me notícias. Beijo

Zeze disse...

Olá

Como é a Vida, a nossa Alma muitas vezes é tão pequenina...

Beijoka

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Olá, Ana!

*O DIA DE HOJE
Ofereço aos amigos inesquecíveis


O dia de hoje é o mais importante na vida

O dia de hoje deve merecer total prioridade.

Só hoje se pode ser feliz

O amanhã sabe-se lá se chegará,

e o ontem já foi muito tarde para ter sido feliz.

A maior parte das nossas dores é fruto

dos restos do ontem

ou dos medos do suposto amanhã.

Viva o dia de hoje!

Viva feliz!*

Muito obrigada pela visita e pelo carinho*****
Beijos da Renata, bem melhor *****

***

Sim, minha querida. Post-resposta a 400 *elogios* que recebo por dia. Ao moderar o seu, sempre bem-vindo, havia ++ de 400. Sem condições, interrompi e publiquei Amor*******

Não consigo perceber nada. Por isso, não comento.

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Letras pretas em fundo vermelho não simplesmente enxergo. Só este o motivo!
Beijos de coração a coração, Humana.
Renata

mundo azul disse...

_______________________________


O poema é mesmo tocante!
Infelizmente, algumas pessoas desconhecem totalmente as palavras, solidariedade, compaixão, humildade... Não tem consciência de que, aquilo que hoje é riso, amanhã, poderá ser pranto...

Vou no blog do seu amigo!

Beijos de luz e o meu carinho muito especial, querida Ana...

_______________________________

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Belíssimo poema, sem dúvida. Vou dar um salto ao blog
Beijinho