domingo, 14 de março de 2010

Desabafo de mãe




Por estes dias tenho andado triste. Sinto o coração apertado e um nó na garganta que me faz chegar às lágrimas com extrema facilidade. Eu falo, eu brinco mas o meu sentido, o meu pensamento tem uma unica preocupação e direcção.
Por estes dias e após o treino de Futsal do Gonçalo, o treinador veio falar comigo.
Elogiou o desenvolvimento do Gonçalo em dois meses e meio de treino e disse que ele é mesmo uma peça fundamental da equipa. Eu sinto que ele sente um carinho muito especial pelo meu filho mas é natural que aconteça porque o Gonçalo é uma criança extremamente meiga e cativante.
Como sabem e repito para quem não o conhece ainda, é hiperactivo com défice de atenção mas com problemas associados de disortografia e dislexia.
Estranhamente para mim porque os hiperactivos que conheci sempre, são pessoas extremamente agitadas, o Gonçalo tem um procedimento perfeitamente normal para uma criança de 9 anos quase a fazer 10, ainda este mês e só é possivel notar a sua problemática no que diz repeito ao estudo. Ele ainda não consegue ler e escrever como os outros meninos da mesma idade.
Apesar de todas as dificuldades, estamos todos empenhados, familia, médicos e professores, em que a situação seja ultrapassada da melhor forma possivel e os resultados são visiveis de ano para ano. Ao ritmo dele, existe sempre evolução e para mim é sempre uma felicidade que tantas vezes aqui tenho partilhado.
Tudo o que falei até agora é a parte positiva mas aconteceu uma situação que me deixou muito preocupada e passo a contar.
Ao longo da conversa com o treinador, eu como muito atenta que sou fui percebendo que ele me queria dar alguma dica, ao falar que não deviamos dar muita importância quando se falava em "deficiência" porque se ele não soubesse nem nunca diria que o Gonçalo tinha algum tipo de problema. Que as pessoas julgavam por vezes que jogar à bola é dar chutos na bola mas que não é e que o meu filho joga não só com muita habilidade como também com uma estratégia bem definida que demonstra maturidade. Aí eu respondi que o Pedopsiquiatra era exactamente isso que pretendia ao querer que ele tivesse uma actividade desportiva que gosta, para o estimular a vários niveis e que essa sua avaliação me deixava muito contente.
Saí do treino a pensar no assunto e enquanto caminhávamos para casa, perguntei ao Gonçalo se alguma vez tinha havido alguma conversa sobre deficientes que ele não tivesse contado.
Aí ele disse-me que um colega, tinha falado com um amigo na frente dele, dizendo: _ Olha, este é que é o meu colega deficiente. O Gonçalo respondeu que não era nenhum deficiente. Aí, o amigo para provar a sua tese fez-lhe uma pergunta sobre um problema simples mas que obrigava a fazer abstracção, pergunta essa que o Gonçalo não soube responder. Aí então ele disse: Vês? Então és deficiente!
Naquele preciso momento em que olhava para o meu filho e vi a sua tristeza, o meu mundo veio abaixo.
Como sempre faço porque as tristezas ficam dentro de mim, eu expliquei-lhe que o menino usou aquele termo porque concerteza não sabia explicar de outra forma o problema dele e não teria sido por mal. Depois nós sabemos que ele tem mais dificuldade em determinadas matérias mas que vai chegar lá e com calma, consegui que ele me dissesse o resultado certo do problema.
Abracei-o e viemos os dois para casa a conversar e a rir e é dessa forma que tento sempre minorar a dor que penso que ele possa sentir. Agora a dor que sinto, eu não consegui.
Por casualidade ou não, no dia seguinta assisti a um programa que falava de pessoas diferentes que têem vencido dificuldades e são pessoas realizadas e mais uma vez só soube chorar.
Qualquer um dos meus filhos é muito sensivel e eu sei que o Gonçalo que está sempre atento para saber se estou bem, é capaz de tal como nesta situação, já ter passado por outras que não me contou para que eu não sofra. Conheço bem o ser humano lindo que ele é!
Eu só gostava que os outros pais fossem também sensiveis a estas questões e mostrassem aos filhos que todos temos um lugar aqui neste mundo.
Sinceramente porque me sinto confusa e baralhada e conhecendo gente com maneiras de ser e comportamentos tão diversos mais uma questão se coloca:
Onde começa e acaba a tal de chamada "Normalidade"?

Ana Casanova

19 comentários:

RETIRO do ÉDEN disse...

Todos temos as nossas deficiências...a pior é a espiritual!
Forte abraço
Mer

Vladir Duarte disse...

As pessoas ditas "normais" ainda tendem a discriminar aqueles que possuem algum tipo de deficiência, infelizmente. Aqui no Brasil esse tipo de atitude é muito devido à falta de educação e cultura da população, de pouco conhecimento mesmo. É realmente preciso que pais sejam suficientemente sensíveis para não ensinar seus filhos a serem preconceituosos... afinal, normalidade é um conceito tão vago. Bom mesmo é que cada um conseguisse conviver com as defici~encias dos demais!

tossan disse...

Acho que esse treinador vai ser muito importante. Sinto só por tuas palavras. O tempo e o aprendizado, embora lentos é que darão a continuidade porque a base está em vocês. Beijo

Chica disse...

Emocionante esse tewu relato e mostra qu está faltandop tanta, mas tanta sensibilidade a esse mundo!Pena! Tenho certeza que Gonçalo,pouco a pouco,saberá ele mesmo, responder à altura...um beoijo e tudo de bom,chica

[ rod ] ® disse...

Quem é mesmo 'o normal'? Quem julgas por esta óptica carece de discernimento. As limitações só existem na mente dos incautos. O Gonçalo é um rapaz normal a todos e mesmo que com alguns défices merece carinho e respeito. Limitá-lo seria impor uma regra injusta demais a sua vida.

Enfim, estou aqui moça... conta comigo sempre!

O Profeta disse...

Imagino o canto maternal das baleias
Como doce e sentida balada
Imagino um beijo na procura
De uma fugidia criatura amada

Um domador de ventos e tempestades
Uma viagem de aventuras repleta
Serei eu um herói de comédia de enganos?
Ou apenas um pobre e louco poeta

Doce beijo

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Ana...compreendo sua preocupação e ela faz sentido, mas acredito que isto também seja apenas uma daquelas situações que irão sempre existir, pois as crianças nesta idade tem essa caracteristica, um certo preconceito e uma reação muito cruel com os ditos "diferentes"...nesse todo entram os mais gordinhos que são alvo de brincadeiras, os mais timidos, os mais baixinhos, os desengonçados e por ai vai...
Seu filho tem o mais importante, a familia que o apóia, o professor e com certeza amigos que o tratam de forma igualitária...isso vai passar...acredite...com certeza é um fato isolado e será superado.
Um abraço na alma, uma ótima semana pra vocês...bjo

kandanda disse...

Ana sei bem do que fala, sei bem o que sente. Tenho igualmente um filho com dificuldades do mesmo teor. Eles são suficientemente inteligentes para perceberem que muitos dos seus pares e muitos dos professores não têm a sua sensibilidade e por isso os magoam com descriminações tolas e de um nível tão baixo quanto só os ignorantes acéfalos podem ser. Lamentável em colegas meninos mas pior são os professores e pais que mostram não ter capacidades para transmitir aos seus filhos e alunos que cada ser humano é um exemplo e cada ser tem um tempo para percorrer o trajecto que Deus nos proporciona. O meu filho anda a ser ajudado por especialistas, lamentavelmente fora da escola porque nela não encontra apoio, poucos são os professores que têm "tempo" para o ajudar...chamam-lhe eles "tempo", eu chamo-lhe capacidades...infelizmente hoje é professor quem tem um curso "cru e puro simplesmente"...mesmo que nada saiba de pedagogia e metodologia de ensino...
Força Ana, não baixe os braços porque eles serão a garantia do sucesso do seu menino.

Humana disse...

Kandanda, depois diga-me como prefere que o chame por favor.
O Élcio, porque é uma pessoa boa e bem formada, comparou a diferença feita, aos outros meninos a quem descriminam também e todos andámos na escola e sabemos como é. Só que eu tenho consciência que o caso vai muito além disso exactamente pela falta de consciencialização que tem que começar no seio familiar. Nunca um filho meu descriminaria um colega porque nunca teve esse exemplo em casa. Não digo que sempre que os pais são correctos, os filhos também o sejam mas a educação, a formação, a humanidade tem que vir bem detrás.
Eu em relação à escola sei que tive muita sorte. O estado acabou com apoios a muitas crianças hiperactivas e outras com necessidades especiais mas o caso do Gonçalo é dos tais considerados graves porque não tem a ver com problemáticas sociais ou de mau ambiente familiar. Essas crianças perderam o apoio que tinham, infelizmente.
O Gonçalo tem uma professora que o acompanha desde o 1º ano até agora que é maravilhosa, outra de apoio especial também muito querida e este ano ainda tem um professor de terapia da fala. Para completar, este ano a associação de pais introduziu professores de desporto e o Gonçalo finalmente está a treinar o que ele tanto queria e com óptimo proveito e desempenho.
A esse nivel e com o acompanhamento ainda do Pedopsiquiatra e do estimulante cerebral, estamos a atingir os objectivos pretendidos, aliando sempre muito amor e carinho, muito estimulo.
Este tipo de situação veio alertar-me para outros aspectos que ele pelos vistos já enfrenta e não fala e muitos mais que possam surgir e foi isso que me preocupou e causa sofrimento. Sei que não vou mudar o mundo mas ao meu redor e no que está ao meu alcance eu vou lutar. É a felicidade do meu filho e de muitas crianças como ele que está em causa.
Já agora e porque não sei se leu quando contei, houve pais e professores, que estiveram contra as oficinas para crianças especiais na escola Noronha Feio que é uma das escolas modelo do Concelho, nesse aspecto. Achavam que os nossos filhos dessa forma tomariam mais tempo aos professores. Acho isto de um egoísmo e de uma crueldade atroz! Tomara que eles não precisassem desse tal de tempo que vão ter que "tomar" aos professores.
Muito obrigado pelo seu testemunho e pelas palavras de encorajamento.

JotaCê Carranca disse...

As crianças entendem melhor que nós os adultos. Somos uns seres carregados de dogmas e complicações. Nós é que somos os deficientes. Por isso vejo o mar, ouço o mar e dialogo com o mar.
Obrigado pela simpatica visita

kandanda disse...

Ana, fico contente e sensibilizado em saber que pelo menos na escola que o seu menino frequenta existe sensibilidade para a diferença e fazem-na pela forma mais positiva e proveitosa para debelar as dificuldades. O meu filho já está no 7º ano. Tem passado de ano por manifesta teimosia dos professores, porque em termos de aproveitamento em circunstâncias iguais às que eu tive na sua idade nem pensar em passar de ano. Mas esta não é uma forma de resolver as dificuldades. Sempre fui apologista da meritocracia e para isso é necessário que todos estejam em circunstâncias iguais. Ora como pode uma criança estar em iguais circunstâncias de desenvolvimento académico quando a escola lhe nega oportunidades de adequar as metodologias de ensino ao seu perfil psicodinãmico, que nada tem haver com doença mental ou desajuste afectivo. E isto porque estamos no paradigma da "norma"...que norma? A da subtil forma de economizar descriminado cidadãos que têm direitos adequados mas não discriminatórios.
Dr. Carranca o seu bem haja pela sua sempre boa opinião e mentalidade...assim fosse o mundo e certamente as nossas vidas seriam outras!

Anderson Fabiano disse...

ana,
não creio que haja normalidade ou anormalidade. há sim, adultos preparados para a vida e outros não.
assim, beijo seu gonçalo e doo minha cumplicidade para sua caminhada.
meu carinho,
anderson fabiano
ps: espero você no meu novo espaço:
letras-profanas.blogspot.com

netuno artes disse...

Minha querida amiga,
teu desabafo e tristeza tem razão de ser, mas pense que ninguém é perfeito neste mundo, a perfeição sómente do Criador, ELE o É.
Teu gonçalo pode ser hiper ativo, talvez a criança ( que só pelo fato de ser criança, já implica em não ter noção que um adulto teria . . . )que fez este comentário maudoso, tenha um outro tipo de problema que nem ele mesmo o saiba!

Ninguém neste mundo é prefeito, torno a escrever, e digo mais ninguém é totalmente senhor de total conhecimento, o mais sábio dos sábios ( mesmo sendo um médico que examinou teu filho ) apenas tem um conhecimento PARCIAL das coisas.

Assim sendo quando passamos uma vida inteira a estudar determinado assunto, ao final ( da vida ) apenas passamos a conhecer " parte " desse assunto, pois a todo instante descobre-se coisas novas, e as antigas tornam-se absoletas.

Espero ter te animado, um forte abraço ao Gonçalo,
bjs netunianos

Flor disse...

Ana,
O Goncalo vai encontrar muitos preconceitos e ignorancia ao longo da vida, infelizmente. E vai encontrar tambem muitos deficientes em sensibilidade. Mas a julgar pelo apoio, amor e educacao que lhe das, vai ser espiritualmente forte para ultrapassar tudo isso. A minha irma teve imensos problemas com a escolaridade do filho. Ele e hiperactivo com defice de atencao. Nao ha a certeza se tambem sofre de dislexia. E uma crianca bastante inteligente, fala fluentemente 3 linguas (pai frances, mae portuguesa, escolarizado em ingles), mas desde sempre teve dificuldades escolares relacionadas com o facto de nao conseguir prestar atencao a nada por mais de 2 minutos. Atraves dos anos de instruccao primaria, a minha irma teve de protestar permanentemente quando os professores queriam “reprova-lo” (para mim esta ideia e tao obsoleta e extravagante, no UK nenhum aluno reprova na primaria!), ate porque repetir o mesmo mais um ano so iria deixa-lo totalmente aborrecido e ainda com menos atencao! Durante anos, ela teve de passar horas a fio sentada com ele para que fizesse os trabalhos de casa (por causa da falta de atencao, o que aos outros levava meia hora, a ele levava 3). Ela resistiu contra a medicacao por 6 anos, mas finalmente encontrou um medico em quem confia. Desde que o meu sobrinho esta a tomar o medicamento que ele receitou (nao toma aos fins de semana nem nas ferias) a mudanca foi radical. Tem tido optimas notas, ja nao precisa de ajuda com os deveres e a relacao mae-filho melhorou imenso, ja que ela nao tem de estar sempre a obriga-lo a trabalhar. A via que tens de tomar para o teu filho sera diferente, ja que cada problema tem de ser enfrentado e resolvido a seu modo, mas tem confianca em ti e nele, em bons medicos e bons professores e lembra-te que quanto mais dificuldades a vida nos poe a frente mais fortes nos tornamos.
Bjks pra ti e Goncalo
Flor

Celeste disse...

Ana, sou mãe de uma "Menina Rara" que tem 16 anos, a minha "Princesa Inês". Ainda sem diagnóstico, mas pensa-se que terá o síndrome de Rett, doença que afecta 1 em cada 15.000 meninas...
Hoje, já não pergunto,mas questionei centenas de vezes:
Porquê eu meu Deus, porquê? Agora sinto que não foi por acaso...
Agradeço á Inês por ter entrado na minha vida e ter-me feito na Mulher que sou hoje...Altruísta, Solidária, Exigente (tambem), AMIGA no verdadeiro sentido da palavra, entre outras virtudes, que porventura jamais iria usar nesta Vida....
É ela que me dá o olhar (Lindissimo)e Força nos dias em que me sinto em baixo.
Á Ines não exigo nada, senão um sorriso. Ao irmão já exigi, para que ele fosse um Ser Humano Saudável por dentro e por fora.
Ser uma "Mãe diferente" é dar tudo, sem exigir nada em troca...
Como Mulher, quero Viver a Vida com muitos momentos felizes, dando importância ao que, e a quem realmente merece...
Desculpe o comentario ser longo, mas não queria de deixar partilhar consigo a minha experiência pessoal de "Mãe Diferente"....Com admiração.
Celeste

Turmalina disse...

Ana, tenho um filho hoje com 14 anos que tb apresenta déficit de atenção e um pouco de dislexia.
Coincidentemente ele joga futsal e muito bem por sinal.
Infelizmente por aqui não temos escolas especializadas e honestamente acho o sistema educacional brasileiro obsoleto.Só agora, tendo que lidar com as dificuldades do meu filho é que descobri que o sistema está cheio de falhas.
Infelizmente, pelo menos por aqui, os professores não estão aptos à identificar o aluno que realmente tem dificuldade, daquele que tem preguiça.Por conta da péssima relação que temos com a escola, apesar do QI 120, ano passado ele repetiu, porque seu problema reside exatamente em matérias como a língua portuguesa, história e Geografia.Mas eu não desanimei não porque conheço o potencial maravilhoso do meu filho.Se hoje ele passa por dificuldades no futuro tenho a certeza que será uma pessoa bem sucedida porque os valores realmente importantes ele aprende,e bem, em casa.
E desde o começo eu optei por não medicá-lo e os profissionais que trabalham com ele, com a psicopedagoga e o terapeuta também concordam. Afinal ele tem de aprender a conviver com suas dificuldades, criar estratégias e principlamente aprender a lidar com as frustrações.
Vc vai ver...tudo vai dar certo no final :o)

Celise Rosa Govea (Dicas de Celaise) disse...

Ana, li seu desabafo. Sou psicóloga, trabalhei muitos anos na área escolar.Atualmente trabalho em consultório em atendimento com adultos e cças. Já vi de tudo e gostaria de lhe dizer que seu filho pode estar incorporando esses diagnósticos e somatizando essas " deficiências" Abandone esses rótulos, as vezes a procura por uma explicaçāo nos levam a diagnósticos que não condizem a realidade. Acredite mais na capacidade que ele vem lhe mostrando e siga sua intuição. As vezes está na hr de mudanças...quem sabe: de escola, médicos e descobrir profissionais que valorizem os aspectos positivos como este professor . Um abs, Celise Rosa Govea
http://celaise.blogspot.com/

Je Vois la Vie en Vert disse...

Todos nós temos deficiências e quem não aceita as deficiências dos outros não admitiu as dele.
O seu filho tem a sorte de ter uma família e especialistas a tratar dele, há tantos que não tiveram esta oportunidade e foram abandonados. Conheço vários casos assim que me desolam.
Continue a sua luta, vale sempre a pena e um dia, a "tal" deficiência será esquecida e passará para trás face às qualidades desenvolvidas no seu filho.
Beijinhos
Verdinha

rosangela disse...

estou a chorar!!! a minha filha tem só 5 anos e já esta se sentindo diferente!!!